“O turismo clássico, como o conhecemos, acabou”

Diz-se otimista por natureza. É sportinguista. Pedro Machado acredita que 2021 será um ano melhor que 2020 para o turismo no centro do país, apesar dos vários condicionalismos ainda vigentes, e tem a estratégia bem estudada para colocar a região no radar dos turistas. Porém, tem consciência que não vai ficar tudo bem. Numa conversa desafogada, diz que é necessário alterar modelos de negócio, que muitas empresas não vão resistir e que irão perder-se milhares de postos de trabalho. Aponta falhas aos apoios públicos às empresas do setor e critica as linhas do Plano de Recuperação e Resiliência (PRR). Na primeira pessoa, conheça as expetativas do Presidente do Turismo do Centro de Portugal para o setor neste segundo ano de contexto pandémico e as ideias para o colocar novamente na trajetória desejada.  

Tivemos um 2020 catastrófico. Quais são as suas expetativas para 2021?
Espero um ano melhor que 2020, ainda que de forma muito ténue. Isto porque no ano passado as duas janelas temporais que se abriram foram janeiro e fevereiro, quando ainda não havia pandemia e, depois agosto e setembro, meses em que se registou um desempenho muito razoável da atividade, mas que depois caiu abruptamente em outubro, novembro e dezembro. Acho que este ano vamos ser mais cautelosos no que diz respeito às medidas sanitárias e iremos ter uma maior capacidade de mobilidade no final do ano, o que dará origem a um ano com picos de atividade menos elevados nos meses de julho, agosto e setembro, quando comparados com os registados no ano passado, mas também menos negativos nos últimos meses do ano, o que, no cômputo geral, dará origem a um ano melhor que 2020.

Mas será um ano ainda com muitas condicionantes?
Sim. Será um ano que dependerá do resultado de três exercícios. O primeiro é uma incontornável aposta nos mercados nacional e espanhol. Tenho poucas expetativas em relação aos mercados externos mais tradicionais. A Irlanda, por exemplo, dizia-nos há dias numa reunião de delegados que vão recomendar que os irlandeses não viajem em 2021. Já Espanha é um mercado que está aqui ao lado e está desejoso de viajar, tanto assim é que a FITUR - Feira Internacional de Turismo en Madrid vai realizar-se em maio. Acho arriscado, mas já foi comunicado e é um sinal claro que os espanhóis querem iniciar a atividade turística rapidamente.
O segundo é o sucesso do plano nacional de vacinação. Se, numa segunda fase, quisermos ser escolha de mercados que estão a 2/3 horas de avião, facilmente substituíveis por 5/6 horas de carro, como aconteceu na época da passagem do ano, por exemplo, temos que ser bem-sucedidos no plano de vacinação. Veja-se o caso de Israel que, devido à bolha de proteção criada pelo sucesso do seu plano de vacinação, já anunciou que estão criadas as condições para se poder viajar para o mediterrâneo israelita em segurança. Nós temos que criar estas condições para estarmos no perímetro dos mercados internacionais desejados e daqueles que querem viajar. Depois, em paralelo com estes dois fatores, há que estruturar e consolidar alguns produtos que até aqui não faziam parte da primeira linha da nossa oferta.

"Temos que ser bem-sucedidos no plano de vacinação".

 

A pandemia alterou os comportamentos e as preferências dos turistas?
Naturalmente. Houve um ressurgimento e uma valorização de produtos turísticos que não estavam na primeira linha da procura turística de Portugal, como os clássicos, citybreake, o turismo cultural e o “sol e praia”. Refiro-me ao ecoturismo, o enoturismo, turismo de natureza e turismo ao ar livre, e percebe-se porquê. São modalidades que induzem uma perceção de segurança e onde o espaçamento físico é natural, uma preocupação que se viu também na escolha do tipo de alojamento, onde se registou uma clara preferência por infraestruturas horizontais em detrimento das verticais. As pessoas querem evitar elevadores e outros espaços onde se juntem muitas pessoas.
Uma segunda tendência foi a alteração das motivações e experiências procuradas pelos consumidores, que culminaram na substituição de férias no estrangeiro ou na praia, pelo turismo em espaço rural e pelas praias fluviais. Os números do INE confirmam bem esta tendência. Dou-lhe um exemplo que conheço bem. O aldeamento turístico “Casas do Côro”, em Marialva, teve o melhor mês de agosto dos últimos 20 anos. E a terceira tendência, que também acho que vai manter-se em 2021, é o cada vez maior alinhamento destes produtos com uma nova geração de consumidores, mais despertos para as questões da sustentabilidade, do Green Deal, e menos alinhados com os produtos clássicos que nós vínhamos a oferecer, sobretudo no mercado internacional, que é o Portugal mediterrâneo, com praias e golf.

 

APOIOS AQUÉM DAS NECESSIDADES

Qual é a apreciação que faz sobre o conjunto de apoios criados para combater os efeitos da pandemia?
Diria que começaram por surgir tarde e tiveram uma execução lenta. Repare, quando é lançada a segunda fase do Programa Apoiar, em meados de janeiro, ainda a primeira fase, lançada um mês antes, não tinha sido concretizada do ponto de vista da tesouraria. A dotação da linha de crédito com garantia do Estado, lançada a 18 de janeiro, revelou uma dotação insuficiente porque foi esgotada só com as listas de clientes que os bancos tinham em carteira. Além do tempo entre o anúncio das medidas e a concretização das mesmas ser colossal, revelaram-se insuficientes para as solicitações e de abrangência reduzida. Aliás, as medidas foram sendo alteradas à medida que eram contestadas pela falta de abrangência. Lembra-se da manifestação liderada pelo Ljubomir (Stanisic)?

Houve ou há muitas empresas “de fora”, sem apoios?
Há unidades hoteleiras na região centro sem qualquer apoio do Programa Apoiar. Umas porque devido a alguns meses simpáticos em 2020, apresentavam quebras de faturação face a 2019 inferiores aos 20% exigidos para aceder ao apoio. Não consigo entender que uma empresa que tenha uma quebra de 19% já não deve ser apoiada. Outras, porque não tinham a situação regularizada com a Autoridade Tributária e ou com a Segurança Social. Por exemplo, muitas delas tinham em curso planos de pagamento e recuperação com estas entidades, que pretendiam suprir com os fluxos gerados em 2020, mas esses fluxos não apareceram.    

Então, o que é que pode ou deve ser feito para minimizar casos como estes?
Neste momento devia ser feita uma rigorosa avaliação das empresas que em primeira linha foram obrigadas a encerrar a sua atividade e tentar perceber o porquê do encerramento. Recorde-se a questão dos sócios-gerentes, que só mais tarde é que foi contemplada. Em muitas microempresas, o sócio-gerente é o senhor que está a servir à mesa. Depois, é necessário abrir o leque das opções na validação da despesa elegível, em função das características das nossas micro, pequenas e médias empresas, e, em particular, das situadas em territórios de fraca competitividade. Ou seja, avaliação global e abertura total com atenção especial para as empresas em territórios onde a perda de competitividade é superior à registada em territórios que têm melhores condições de partida.

"Há empresas que vão fechar, ponto.
E isto significa que serão destruídos alguns milhares
ou dezenas de milhares de postos de trabalho".

 

E em relação às moratórias que terminam em setembro? Raul Martins, o Presidente da Associação de Hotelaria de Portugal, manifestou no jornal Expresso a necessidade de os prazos serem alargados até 2023/24. Concorda?
O prazo de pagamento das moratórias tem que ir obrigatoriamente até setembro de 2022. Li o artigo e subscrevo quase na íntegra o que disse Raúl Martins. A única coisa que não gostei foi que o Raúl pensou só em Lisboa e Porto. (risos)

Diminuir os impostos sobre o setor é uma opção a considerar?
O P
edro é defensor de um período de isenção da Taxa Social Única (TSU).

Portugal tem uma carga fiscal elevada, ninguém tem dúvidas disso, nomeadamente, na fiscalidade ligada ao tecido produtivo. Portanto, se o tecido produtivo tem a sua operação condicionada e o Estado não lhe alivia a canga, as empresas dificilmente resistirão. Não havendo dinheiro para injetar diretamente, a tomada de algumas medidas de alívio fiscal poderia fazer sentido. Porém, não acredito que a descida do IVA – Imposto sobre o Valor Acrescentado faça parte delas, porque é um imposto pago em função da fatur
ação. Como na atual conjuntura não há faturação, descer o IVA não tem impacto nas empresas.

Antevê encerramentos, empresas que não consigam resistir?
Sim, não haja dúvidas sobre isso. Conheço já vários exemplos. Veja-se o restaurante “O Valério”, em Mangualde. Uma referência gastronómica. Restaurante pequeno, marido e mulher na sala, uma empregada, um sítio cinco estrelas. Fechou e está à venda. Outro: o “Três Pinheiros”, na Mealhada, encerrou, está à venda. Vamos ter hotéis fantasma. Em Fátima, apenas dois dos dez hotéis da Associação Fátima Hotels estão abertos e com uma ocupação de 10%. Vamos ver ali torres, meses seguidos, que não vão servir para nada, são fantasmas. Há empresas que vão fechar, ponto, e isto significa que serão destruídos alguns milhares ou dezenas de milhares de postos de trabalho.

 

PRR TEM QUE SER REPENSADO

Mas agora vem aí o Plano de Recuperação e Resiliência (PRR). Já está em consulta pública. Qual é a sua opinião sobre as linhas de ação do plano? 
Infelizmente, o PRR não está dirigido para o setor que nos últimos dez anos levou Portugal de uma situação deficitária na Balança de Transações Correntes para uma situação excedentária. Está direcionado sobretudo para o Estado, para recuperar as áreas do Estado, a saúde, os caminhos de ferro, as áreas metropolitanas, etc.

De facto, o turismo é pouco referenciado no documento.
O PRR devia, não só acudir, mas também preparar e dar novas capacitações àqueles que vão sair desta crise. Tenho a certeza absoluta: o turismo clássico, como o conhecemos, acabou. Daqui em diante vamos ter modelos de negócio diferentes dos que tínhamos até agora. Não tenham dúvidas. A pandemia veio mudar muitas formas de negócio. Por exemplo, vemos o e-commerce a florescer, vemos feiras do queijo, como a de Seia, a ser feita on-line. Isto é uma mudança extraordinária e uma solução óbvia. E nós vamos ter que pensar como é que vamos fazer com os outros atores que estão espalhados pelos territórios e que vão ter que se reinventar. O PRR não tem uma linha de orientação para isto.

Acha que o Governo tem coragem para mudar a orientação do plano?
Não, já não tem. O PRR já está em discussão pública, dificilmente irá a não vai a tempo.

Mas teremos também o próximo quadro comunitário, o Portugal 2030.
Que é uma preocupação acrescida minha. Há quem diga que o PRR é um programa de 5 anos para aplicar à resiliência e à recuperação e o investimento deve ser feito dentro do âmbito do quadro comunitário 20-30. Mas a experiência não é boa. Sabe o que aconteceu no quadro comunitário 2014/2020 na região do centro? Este quadro tinha a dotação de 2,155 mil milhões de euros. Sabe quanto é que executámos? 40%!

E porque é que isso acontece?
Porque nem as empresas nem os municípios têm a capacidade de investimento que permita ir aos programas e esgotar a dotação. O que o Governo está a dizer é não ataquem o PRR, porque depois vem o Portugal 2030 para aqueles investimentos que agora estão a reclamar que deviam ser feitos com o dinheiro do PRR. O problema é que depois não temos empresas para ir ao Portugal 20-30.

"O Estado não pode ser simultaneamente o distribuidor
e o beneficiário dos programas comunitários".

As empresas estão descapitalizadas e no turismo ainda mais.
Exato. Não há fluxo, não há tesouraria, não há capital. Não há investimento em capital, só há despesa corrente, água, luz, rendas. Todo o dinheiro que está a ser gerado é canalizado para estes custos. Onde é que as empresas vão buscar dinheiro para ir aos programas de eficiência energética, alterações climáticas e economia circular? Não têm como lá chegar.

Mas tem que existir uma solução. Não estamos condenados.
Claro que não. Você está a falar com um sportinguista. (risos)

Então qual é o caminho?
Há que voltar a sentar, voltar a chamar o António Costa e Silva e refazer as linhas de prioridade para emagrecer um pouco o investimento no setor público e reforçar a competitividade das empresas, dar mais dinheiro às empresas para que estas se consigam recapacitar, modular, reorganizar, acudindo à digitalização e outros meios para conseguirem ser mais competitivas e, desta forma, salvarem a honra do convento. Se o Estado financia Estado, não vamos a lado nenhum. O Estado não pode ser simultaneamente o distribuidor e o beneficiário dos programas comunitários.

E, no seu entender, deve-se fazer isso através do PRR?Pedro Machado - Presidente do Turismo do Centro
Sim, por isso é que eu digo que o Governo está à defesa. O que o Governo está a fazer é não correr riscos. O dinheiro que aí vem vai ser distribuído sem riscos. Se o entregarem ao setor privado, há um risco, o risco do setor privado ter sucesso, aumentar exponencialmente, e rentabilizar os euros que vierem. Ou então vai ao Estado e o Estado já sabe que apenas vai gastar aquilo. O Estado está à defesa. Recebe 7 mil milhões, distribui-os pelas linhas férreas, pelos aparelhos do Estado, pela remodelação da função pública, pela capacitação dos hospitais, das escolas, etc. É jogar à defesa.

 

ESTRATÉGIA DO TURISMO DO CENTRO

Qual é a estratégia do Turismo do Centro para ajudar as empresas a ultrapassar esta fase?
Nós vamos atuar em três fases. A primeira é acudir à urgência. É uma emergência salvar as empresas.

Como?
Através da nossa divisão de apoio ao investimento, através das nossas reclamações e da minha interação com o Turismo de Portugal e com a Secretaria de Estado, para que sejam criadas medidas adicionais, a fundo perdido, para a tesouraria, etc. Iremos lançar em março uma campanha massiva de venda de unidades de turismo em espaço rural de três e quatro estrelas para os 4,5 milhões de consumidores portadores do cartão Continente. Esta é a primeira grande campanha nacional que vai acontecer e é exclusiva do Turismo do Centro, e será uma forma de injetar venda direta já a partir do 1º dia útil do desconfinamento.

É uma alternativa aos vouchers, com os quais tem vindo a manifestar a sua concordância?
Eu participei na apresentação dos vouchers da Câmara Municipal de Ourém, a campanha “10 001 noites”. Neste momento, na fase de sobrevivência e de emergência, todas as ajudas, mesmo as pequenas, são importantes e devem ter um foco na venda para terem impacto na tesouraria das empresas. As 10 001 noites que a Câmara de Ourém vai oferecer, significa que, por cada cidadão, turista, nacional ou estrangeiro, que durma uma noite no concelho de Ourém, a Câmara oferece a segunda noite. A campanha é também válida para restaurantes. Ora 10 mil vezes 50 euros, que possa custar uma noite, é um valor expressivo, é um valor que entra nas empresas e na economia local. Por definição, prefiro estratégias de médio e longo prazo, mas as circunstâncias atuais obrigam a medidas de emergência, a medidas de curto prazo com impacto imediato.


"Por definição, prefiro estratégias de médio e longo prazo,
mas as circunstâncias atuais obrigam a medidas de emergência,
a medidas de curto prazo com impacto imediato".

E a segunda?
Preparar a possível reabertura, fomentar a dinâmica do início da recuperação. Vamos começar pelo mercado interno, estruturando os produtos que já abordei, sobretudo nas fileiras que estão em linha com as tendências nacionais e internacionais. Iremos procurar consolidar em 2021 o que fizemos em 2020 e que, felizmente, resultou. Fizemos campanhas de marketing digital, media, filmes, etc, e até ganhámos muitos prémios. Por fim, a terceira é começar a abrir os mercados externos. Estamos a trabalhar com planos concretos de promoção internacional para lançar logo que as companhias aéreas e as fronteiras destes mercados mais tradicionais e apostas consolidadas, como Espanha, França, Itália, Reino Unido, Alemanha, países do Benelux, Brasil, EUA, Canadá e Israel, o permitam. Temos uma timeline muito bem definida com os serviços da casa.

No meio desta tempestade, qual é o seu estado de espírito?
Citando Churchill, “eu sou um otimista, porque não adianta ser outra coisa”. Ou seja, há que olhar para o futuro com resiliência, mas acreditar. Estou convencido que, à semelhança de outros momentos difíceis que nós e a Europa passámos, também vamos sobreviver e conseguir ultrapassar esta dificuldade. Acredito que, com o processo de vacinação, nós, assim que conquistemos a imunidade coletiva, estaremos em condições de retomar os fluxos turísticos. Ainda não de uma forma tão célere como a desejada, mais de uma forma calculada. A minha previsão é que a normalidade só deverá estar reestabelecida na Páscoa de 2022. Até lá, é resistir, trabalhar, ter esperança e vencer.

Nota - Pedro Machado é Presidente da Mesa da Assembleia Geral da DESTINATURE – Agência para o Desenvolvimento do Turismo de Natureza.