Um pedaço de história da Terra

Carlos Neto de Carvalho, geólogo, investigador, é o coordenador científico do Geopark Naturtejo, uma das áreas mais ricas em património geológico a nível nacional. Em entrevista à iNature, o responsável fala da importância da marca para a valorização do património geológico e para o desenvolvimento turístico da região, mas também da pouca perceção de valor que ainda lhe é dada pelas autoridades. Pede mais investimento, sinalética e defende que a exploração mineira não é necessariamente má para o desenvolvimento do território. E, no final, aceitou o nosso convite para ser cicerone. Pedimos-lhe um itinerário para três dias no parque. E ele, claro, entusiasmou-se.

Mais de 5 mil km quadrados que abrangem sete municípios. Como é gerir uma área tão vasta e com tantos agentes envolvidos?
De facto, é um território extremamente vasto e heterogéneo, e que envolve muitos municípios, mas que não envolve a Comunidade Intermunicipal como deveria, o que tem originado ao longo dos anos uma gestão complexa. Embora dinâmica somos uma equipa pequena e não é fácil trabalhar com tantos municípios, apesar de existir já um trabalho conjunto e de proximidade realizado ao longo dos últimos anos. Afinal, a Naturtejo existe para os municípios, procurando, de alguma forma, complementar as responsabilidades que são deles.

Quando diz Naturtejo é a mesma coisa que Geopark?
A Naturtejo é hoje a entidade responsável pela marca Geopark Naturtejo Mundial da Unesco, mas quando foi fundada em 2004, o propósito era agregar as várias regiões de turismo numa só entidade e surgir como uma parceria entre os municípios e o setor turístico da região, que era o mais preocupado com a valorização do território, com o objetivo de impulsionar a promoção turística da região. O Geopark surge dois anos depois.

O Geopark surge então em 2006. É um projeto valorizado pelos municípios?
Há municípios que acarinham o projeto Geopark. Idanha-a-Nova, por exemplo, enquanto município que impulsionou não só a Naturtejo como o projeto Geopark, tem acarinhado muito o projeto e tem entendido quais são as mais-valias que o projeto pode trazer ao território. Oleiros é outro exemplo. Foi um município que cedo se associou à marca e que tem trabalhado muito connosco no sentido de valorizar a marca. Aliás, quando Oleiros se associou à marca, o Geopark era apenas uma classificação que tinha o apoio informal da UNESCO. Atualmente, os geoparques são um programa da UNESCO, a par dos programas Património Mundial da Humanidade e Reservas da Biosfera. Acontece que há municípios que não têm a perceção do valor da marca nem entendem o alcance que estas classificações têm. Outros estão agora a descobrir a marca e o potencial que ela tem do ponto de vista turístico.

O património geológico ainda não é valorizado como o cultural ou o histórico? É isso?
Do ponto de vista turístico, o património geológico ainda não tem o mesmo alcance que o cultural, o histórico e o arquitetónico, por exemplo. Ao nível da biodiversidade há uma maior sensibilidade e valorização porque é algo que nos é intrínseco. Mas o património geológico tem um alcance menor porque as pessoas não o entendem. Afinal estamos a falar de paisagens que é o que nos marca quando visitamos um território, mesmo que não a compreendamos.

O Geopark foi constituído essencialmente com dois objetivos: a proteção e valorização do património geológico e o fomento da criação do emprego e do desenvolvimento regional. Está a conseguir?
Esses são alguns dos propósitos de qualquer geoparque em todo o mundo. São a valorização do património geológico e depois o seu enquadramento num contexto territorial com o propósito de potenciar a atividade económica. Na nossa região, apesar de existirem alguns exemplos, não podemos dizer tem tido um impacto direto significativo na criação de emprego e no fomento da atividade económica. Tem acompanhado algum crescimento existente na atividade turística e existe uma quota parte de responsabilidade do Geopark no crescimento da atividade turística na região e em Portugal, mas que nós não conseguimos quantificar.

O valor da marca Geopark

O geoturismo é significativo na região?
Não. O geoturismo pode ser considerado algo diferenciador e pode ser um nicho com significado neste território, na medida em que está a associado à marca UNESCO. Agora se atualmente o é, não. Ainda não chegamos a esse ponto. Aliás, em Portugal, eu diria que o geoturismo hard é muito localizado e de nicho, não tendo um significado e impacto na atividade económica.

Geoturismo hard? Presumo que haja também um soft. Pode diferenciá-los?
Geoturismo soft é, por exemplo, uma visita a uma gruta turística, em que não há passagem de informação sobre a origem daquela forma. As pessoas ficam a saber distinguir uma estalactite de uma estalagmite, mas não se mergulha na origem daquela formação (gruta). Se formos visitar um vulcão aos Açores para provar um bom vinho, é a mesma coisa. Já no geoturismo hard, há uma transferência de conhecimento. É fazer um percurso pedestre, por exemplo, e saber ler a paisagem e perceber que ela é dinâmica, que tem um passado de milhões de anos e que tem um futuro, que existe um processo evolutivo. É este tipo de atividades que nós propomos que os municípios desenvolvam.

"O parque foi alvo de muito trabalho científico que ficou na academia e aquilo que nós temos tentado fazer é traduzir esse trabalho para um público mais generalista. Ou seja, a tradução desse conhecimento para que ele seja mais virado para o turismo, para as escolas e até para os professores".

Não se enquadra no turismo científico?
Não. Aí as pessoas vêm em trabalho. É natural que quem venha cá visitar-nos num contexto científico tenha um momento de lazer, mas fazer investigação é trabalho, não é lazer. Turismo científico é organizar congressos e fazer com que as pessoas permaneçam no território para além do tempo do congresso.

O Geopark tem organizado alguns?
Sim, já o temos feito. Temos organizado vários congressos e seminários internacionais, inclusivamente. É curioso que o que acontece é que temos poucos ou nenhuns participantes portugueses.

Se tivesse que elencar a grande mais-valia da criação do Geopark, qual seria?
Eu diria que é o trabalho que se tem vindo a fazer na redescoberta do território. O parque foi alvo de muito trabalho científico que ficou na academia e aquilo que nós temos tentado fazer é traduzir esse trabalho para um público mais generalista. Ou seja, a tradução desse conhecimento para que ele seja mais virado para o turismo, para as escolas e até para os professores. Sobretudo tem sido esse trabalho no terreno e a proposta constante para valorizar áreas com grande valor geológico e biodiversidade associadas. Muitos locais, que eram desconhecidos ou até muito conhecidos, mas pouco valorizados, têm hoje outro valor. Um exemplo é o Portas do Ródão, um postal desde o início do século XX, mas na verdade iam até à ponte e viam a paisagem ou, eventualmente, iam à torre do Rei Wamba, olhavam a paisagem e estava feito. Hoje em dia, podem e devem fazer isso, mas há os passeios de barco, percursos pedestres e espaços museológicos associados que permitem ter uma perceção mais interessante do local. Outro exemplo é a arte rupestre do vale do Tejo, há muito tempo conhecida e reconhecida, mas também o Conhal do Arneiro, que até há pouco tempo ninguém fazia ideia do que estava ali. E depois temos a Fraga da Água d'Alta em Oleiros, que quando eu a conheci era um acacial. Mas, a partir do momento em que foi integrada na GeoRota do Orvalho, tornou-se naquele que é, porventura, o ex-libris natural de Oleiros.

Nos últimos anos tem existido uma tendência crescente de criação ou de candidaturas a geoparques. Isto não poderá ter um efeito de banalização ou menorização do conceito ou da marca?
Sim, concordo que exista um limite para a definição de geoparques em Portugal e em qualquer outro país. No entanto, enquanto em países como a Rússia, as rochas são as mesmas ao longo de milhares de quilómetros, o nosso país apresenta, ao longos dos seus 90 e poucos mil quilómetros quadrados, uma geodiversidade tão significativa, que nos permite pensar na possibilidade de criar vários geoparques. Mas a tendência a que assistimos cá, em Portugal, está a acontecer um pouco por todo o mundo.

"O nosso país apresenta, ao longo dos seus 90 e poucos mil quilómetros quadrados, uma geodiversidade tão significativa, que nos permite pensar na possibilidade de criar vários geoparques".

Por cá, onde é que farão mais sentido, de acordo com a geodiversidade?
Faz sentido um geoparque nos Açores e faz sentido um geoparque na zona sul de Portugal, onde existem candidaturas a aparecerem, como é o caso da Algarvensis, que é a que está mais adiantada. Por outro lado, há zonas, como a nossa, que já estão demasiado representadas. Já temos o Geopark Naturtejo, o Geopark Arouca, o Terras de Cavaleiros e o Geopark Serra da Estrela que, fora alguns detalhes, apresentam formação geológica comum.

E ali a Oeste?
No Oeste, onde existem várias candidaturas, como é o caso do Geopark Atlântico e o Geoparque Oeste, pode fazer. No local onde se encontram faz algum sentido, mas temos que pensar quais são os propósitos destas candidaturas. Aqui, na Naturtejo, procurava-se um elemento agregador, até porque existiam outras marcas como as Aldeias Históricas. No caso da região Oeste, onde existe um património geológico relevante, ainda que muito concentrado na questão dos dinossauros, que até é algo que vende bem, mas que existe desde Aveiro até Setúbal. Logo, até pode fazer sentido para a Lourinhã, que é uma espécie de capital dos dinossauros, mas fará sentido para a Figueira da Foz em termos de estratégia de diversificação da oferta turística? Fará sentido para Peniche? Enfim, isto levará já a outras discussões.

Neste contexto de pandemia e do aumento de espaços de lazer ao ar livre, o turismo de natureza é ainda mais decisivo no desenvolvimento económico do território Geopark Naturtejo?
Deveria ser visto dessa forma. Nós devíamos estar a aproveitar esta oportunidade, mas só alguns municípios é que o estão a fazer. Devia-se estar a fazer a manutenção de espaços, mas também uma reformulação e uma melhoria, de forma a criar uma oferta mais estruturada e apelativa. Acho que estamos a perder o comboio porque os municípios estão focados também em necessidades sociais, sanitárias. Houve uma aposta forte na parte digital, muitos municípios desenvolveram aplicações, páginas web, conteúdos atualizados mas, no terreno, com novos equipamentos, foram poucos os que agiram. E isto era muito importante, sobretudo depois dos estragos provocados pelos incêndios.

Houve quem apostasse e valorizasse….
Sim. Eu acho que o turismo, e não só o turismo de natureza, ainda não é uma prioridade estratégica de alguns municípios. Fala-se muito, e quase todos têm uma estratégia, mas falta ação e sobretudo uma concertação de estratégias.

A exploração mineira

O desenvolvimento nem sempre é amigo da natureza. Falo da exploração mineira. Em 2016 foi realizado um estudo sobre os melhores locais a nível nacional para a exploração de lítio e Segura, em Idanha a Nova, foi um dos seis locais assinalados. Qual é a sua opinião sobre o impacto desta atividade no Geopark?
Bom, eu posso começar por dizer que há geoparques que vivem exclusivamente do seu património e historial mineiro, e têm bastante sucesso do ponto de vista turístico. O nosso território tem uma história bastante vasta e rica de exploração mineira que começa com os romanos e vem até à febre do volfrâmio – ouro negro – que deixou muitas explorações mineiras. Alguma delas, devido à impossibilidade de exploração rural e de povoamento, tornaram-se autênticos oásis em termos de biodiversidade, o que é um paradoxo muito interessante.

Não me refiro às explorações antigas…
Eu sei. Nós, no passado, já nos mostramos contra novas explorações, como foi o caso da pretensão de exploração de urânio em Nisa, que é algo que está latente e dependente da evolução dos preços do urânio nos mercados internacionais. Como desde o acidente de Fukushima, o preço do urânio caiu muito, nunca mais se ouviu falar nessa situação, mas é uma possibilidade que existirá sempre. Fomos contra por dois aspetos: a proximidade à vila de Nisa e o facto de a exploração a céu aberto acarretar uma acumulação muito grande de fosfatos de urânio que não são utilizáveis e que são colocados em escombreiras ficando sujeitos a serem transportados pelo vento, algo que é perigoso dada a radioatividade. Mas também porque Nisa tem um potencial muito elevado em termos de turismo de natureza, basta ver que mais 50% do território de Nisa é Rede Natura. Agora, temos que olhar para estes processos com algum cuidado.

"As pessoas devem estar atentas e devem ser informadas, mas as empresas também devem ser ouvidas. E, no final, têm de ser as comunidades locais a dizer se a exploração mineira é uma possibilidade de desenvolvimento para a sua região ou se têm outras estratégias de desenvolvimento que pretendem seguir".

Há que pesar os dois lados da balança?
A verdade é que a prospeção mineira traz conhecimento que depois pode ser aplicado ao Geopark. Por exemplo, o conhecimento da geologia da região de Segura existe graças a uma prospeção e exploração mineira que se inicia no século XIX. Houve ali exploração de chumbo, fosfatos, estanho e volfrâmio.

E agora o lítio?
A questão do lítio tem que ser vista caso a caso. No caso de Segura, o local que está identificado está dentro de uma área protegida, o Parque Natural do Tejo Internacional, onde nunca irá existir uma exploração mineira.

Não?
Não. Mas temos que ver além da área dos limites do Parque Natural do Tejo Internacional. Nós não sabemos como é que as minerações evoluem em termos de profundidade. Só através da prospeção. Se existem mecanismos que permitem o impedimento da exploração em área protegida, nós também temos que saber entre o que poderá dar origem a uma exploração e o que é simplesmente prospeção mineira, geológica, e essa prospeção, feita por empresas, muitas delas portuguesas, tem acontecido em todo o país e é fundamental para saber se esses jazigos são aproveitáveis e passíveis de serem explorados.

Os estudos que existem sobre Segura ainda não permitem fazer essa avaliação?
Não. Os estudos que foram feitos para a exploração do lítio são muito incipientes e foram concentrados no limite do granito de Segura com o encaixante que é o xisto, que dá origem à imagem de marca das aldeias do xisto, numa área dentro do parque natural, onde se sabe que não pode haver exploração mineira. As pessoas devem estar atentas e devem ser informadas, mas as empresas também devem ser ouvidas. E, no final, têm de ser as comunidades locais a dizer se a exploração mineira é uma possibilidade de desenvolvimento para a sua região ou se têm outras estratégias de desenvolvimento que pretendem seguir.

Então, a atividade mineira não é necessariamente má para o desenvolvimento do território e para a preservação dos espaços naturais?
Não, se for garantido o que está definido por lei para a proteção das áreas com importância natural e se forem respeitadas as estratégias locais de desenvolvimento. Se tudo isto for discutido, acho que temos todos a ganhar com a diversificação da atividade económica.

Comunicação precisa-se

Qual é a relação da comunidade com o Geopark? Há sentimento de pertença? As pessoas valorizam o facto de estarem no Geopark?
Se formos ali à rua e perguntarmos às pessoas o que é o Geopark, se 10% souberem já é bom.

Mas em Penha Garcia, essa percentagem já é maior, não?
Sim e até terão a sua própria definição de Geopark. Ou seja, normalmente até têm uma visão muito localizada, chamando-lhe o “Geopark de Penha Garcia”. Ainda ontem vi um programa de televisão sobre a região entre Idanha e Penha Garcia, onde falaram do “Geopark de Penha Garcia”. Também se houve falar muito do “Geopark do Tejo Internacional”. Há muita gente que nos liga a perguntar se é do “Geopark do Tejo Internacional” (risos).

Que confusão.
Sim, esta questão das várias marcas territoriais torna-se muitas vezes complicada para as pessoas entenderem.

"O território falha imenso ao nível da sinalética. Existe alguma, mas está a gritar por manutenção. Isto é o mínimo que se pode dizer sobre a sinalética de identificação e os painéis de interpretação que estão num estado deplorável".

Mas nas comunidades próximas dos geomonumentos que o Geopark conseguiu notabilizar as pessoas sabem que estão numa área classificada.
Falta-nos algo que é básico e que podia trabalhar a nosso favor que é a sinalética. O território falha imenso ao nível da sinalética. Existe alguma, mas está a gritar por manutenção. Isto é o mínimo que se pode dizer sobre a sinalética de identificação e os painéis de interpretação que estão num estado deplorável. Essa sinalização seria muito importante para a pessoas reconhecerem a presença do Geopark no seu dia-a-dia, porque mesmo sem serem turistas ou ter alguma atividade na área do turismo, todos os dias passariam por uma placa a assinalar o território e o Geopark. A sinalização é fundamental para estruturar a oferta turística, mas para o marketing interno. Nós vemos isso aqui agora com o Parque do Barrocal em Castelo Branco que se transformou numa bandeira para o Geopark. Até então, e apesar de estarmos aqui no centro da cidade, nem uma sede temos condignamente assinalada. As pessoas entendiam que o Geopark era fora da cidade ou em Idanha-a-Nova, porque foi o município que sempre puxou mais pela marca Geopark.

Falta comunicação interna para que esse sentimento de pertença da comunidade exista?
Sim, e o princípio básico seria uma boa sinalização rodoviária e turística. Alguns municípios estão a trabalhar nisso, outros, nem por isso. Se há algo que devia ter sido feito durante este período da pandemia seria a sinalização dos sítios turísticos e dos seus pontos de interesse, a começar pela sinalização das entradas. Se queremos constituir um destino temos que o delimitar de alguma forma. Nós temos essa necessidade, é a nossa maneira de pensar enquanto seres humanos, é criar estas “caixinhas”, se estamos a chegar a um território especial temos que saber onde é que ele começa, porque a paisagem à volta é toda igual. Isto fez-se na A23, para quem vem do sul, mas do lado norte já não há sinalização. No IP2 também não. No IC8, seria fundamental um painel ali na Ribeira de Isna.

E essa sinalização nas vias principais é da responsabilidade de quem?
É uma responsabilidade nossa, mas dependente de pareceres de entidades que, em alguns casos, nos têm complicado a vida. Nós queríamos ter uma sinalização semelhante à que existe na A23 para as Portas do Ródão. e porque é que não a temos? Porque a autoridade responsável – infraestruturas de Portugal -, considerou na altura que a marca Geopark era uma marca comercial e não se pode colocar sinalização comercial. Outro exemplo, a UNESCO não permite a utilização, nem do logo nem do acrónimo, mas encontramo-lo na nossa rede viária nacional, quando não devia ser possível.

Há aí algumas incongruências…
Sim, por exemplo, se o Geopark é visto como uma marca comercial, a marca da rede das Aldeias Históricas de Portugal também e, no entanto, estão aí pelas nossas autoestradas.

Têm insistido nessa necessidade?
Em certa medida, sim, mas também confesso que existe alguma falta de insistência da nossa parte, por cansaço, e porque isto devia ser trabalhado com os municípios que deviam ter essa necessidade de terem essa delimitação do Geopark nos seus territórios e, connosco, procurar soluções. Se a marca é entendida como comercial, algo se deveria fazer para alterar essa situação. Este é um trabalho fundamental se queremos delimitar e diferenciar o Geopark do resto do território.

Sou um turista e tenho três dias para visitar o geoparque e tenho a sorte de ter o coordenador do Geopark Naturtejo como cicerone. Onde iríamos?

1º Dia – Começar pela porta grande
Começávamos pela porta grande, as Portas do Ródão. É um monumento natural espetacular, que permite perceber a história natural e a presença humana no Tejo. Depois visitávamos o Centro de Interpretação de Arte Rupestre que, por acaso, até está a ser ampliado e melhorado e fazíamos um passeio de barco ou umas caminhadas do lado de Ródão ou do lado de Nisa.

Dali seguiríamos para o centro nevrálgico deste território que é Castelo Branco. A cidade tem uma série de aspetos que, do ponto de vista da evolução demográfica e histórica do território, desde o período templário, das origens da portugalidade, vale a pena conhecer. Para isso, nada melhor que começar pelo Parque do Barrocal.

Depois podíamos mergulhar nas ruas quinhentistas da cidade, visitar os vários monumentos para perceber como é que este território lidou com as suas condicionantes, como a proximidade da fronteira, as distâncias e a falta de boas comunicações que agora já existem, e a orientação obrigatória para a Extremadura. E, claro, um passeio pelo Jardim do Paço, que embora seja uma natureza artificializada tem um estilo que tem de ser visto. Ficaríamos por aqui no primeiro dia. Ou então numa aldeia nas imediações, onde já existe uma oferta de alojamento e restauração de qualidade.

2º dia – Incursão no Pinhal

Arrancamos para o Pinhal, vamos comer bem, comer algumas coisas diferentes como o plangaio, o cabrito estonado, e beber um vinho callum, nem que seja só para experimentar, para ter um gostinho do período medieval. Para quem gosta de caminhar, passear pela Serra do Muradal, à descoberta do Geopark, onde se encontra a Fraga da Água d’Alta, e o Trilho do Apalaches. Ou então fazer apenas a parte norte do trilho que inclui a GeoRota do Orvalho ou a parte sul, entre o Estreito e Vilar Barroco.

Depois da natureza, podíamos ir ao Centro de Ciência Viva da Floresta, em Proença a Nova, para entender como evoluiu a floresta e porque temos tantos incêndios nesta região, e aproveitávamos para comer um plangaio, um enchido típico feito com ossos e carnes de cabra.

Chegados ao final do dia, acabávamos com um mergulho na nova praia fluvial da Foz do Cobrão e um sunset nas Portas do Almourão. Dali arrancávamos para um lugar mais próximo da raia, para pernoitar.

"O Salto da Cabra é um dos sítios do Geopark mais espetaculares em termos de paisagem, é um sítio onde sentimos que estamos no extremo, longe de tudo, mas muito próximos da natureza".

3º dia – Raia de vivências

Vamos ao Salto da Cabra ou os Alares, para perceber o que são os habitats valorizados pela Reserva da Biosfera Transfronteiriça do Tejo Internacional. O Salto da Cabra é um dos sítios do Geopark mais espetaculares em termos de paisagem, é um sítio onde sentimos que estamos no extremo, longe de tudo, mas muito próximos da natureza. E aqui é provável cruzarmo-nos com cegonhas, veados, águias de Bonelli e, com sorte, com uma majestosa águia real.

Dali seguiríamos para Idanha-a-Velha, que é um local de uma riqueza arqueológica enorme. Nós temos quase dois mil sítios de riqueza arqueológica no território e muitos poucos são visitáveis, mas Idanha-a-Velha é um deles. Depois do almoço, passaríamos em Penha Garcia, para mergulhar naquela paisagem quartzítica vertical magnífica. Para quem gosta, é um local ótimo para fazer escalada. E é um sítio ótimo para perceber a história da terra. Seria indispensável fazer a Rota dos Fósseis que, em apenas 3 quilómetros, tem uma variedade extraordinária de exemplares.

E vamos terminar o dia a Monsanto. Subir pelos penedos juntos e subir até ao castelo templário e chegados lá acima temos uma vista 360 graus do território, aproveitamos o sunset e descemos para a aldeia, onde nos deixamos invadir pela sua mística, e vamos comer ali algures.

Parece-me um itinerário demasiado comprido para três dias. Talvez para quatro ou cinco.
Verdade, mas já que me deu oportunidade, aproveitei para abordar estes pontos que entendo serem as referências do Geopark Naturtejo. (risos).

@ iNature