Em Chãos, no concelho de Rio Maior, o povo uniu-se em torno da identidade e do património locais e criou um projeto de desenvolvimento local e conservação da natureza com provas dadas. António Frazão, Presidente da direção da Cooperativa Terra Chã, conta como este projeto nascido de um rancho folclórico evoluiu para uma cooperativa multissectorial e, entre as várias atividades criadas, inventou um modelo de negócio inovador para fomentar a pastorícia e a preservação dos ecossistemas locais no Parque Natural da Serra de Aire e Candeeiros: a subscrição de cabras.

Isso mesmo. Num misto de português e gíria anglo-saxónica da gestão, a Cooperativa Terra Chã inventou o “Cabras as a service”. Se numa subscrição de serviços de telecomunicações, onde através do pagamento mensal de uma prestação, o subscritor tem direito a uma quantidade de dados, mensagens e minutos de conversação, a coletividade sediada na aldeia de Chãos, concelho de Rio Maior, propõe a subscrição de cabras. Na prática, o subscritor paga 150 euros por uma cabra do rebanho comunitário criado pela cooperativa e tem direito a dois queijos de cabra por mês durante quatro anos. Visto desta forma simplista e mercantil, até parece mais uma subscrição mensal de queijos, mas a oferta da cooperativa é um  autêntico “4P” (four-play) que, além dos queijos, oferece também conservação ambiental, valorização das tradições e da economia local, todos serviços de elevado valor acrescentado na ótica do desenvolvimento sustentável.

O projeto do rebanho comunitário da Terra Chã começou em 2009 com um convite da Quercus para recuperar o habitat da Gralha de Bico Vermelho. “Com o abandono do pastoreio na serra, o mato estava a ocupar os campos onde a gralha se alimenta”, explica António. Dois anos antes, a cooperativa tinha iniciado um projeto de promoção do pastoreio na serra com o intuito de valorizar a profissão e conservar os ecossistemas serranos, da qual surgiu a atividade “Pastor por um dia”, uma das muitas ligadas à valorização das tradições e recursos endógenos da região, que a secção de turismo da natureza da cooperativa disponibiliza. Terminado o projeto em parceria com a Quercus, a subscrição de cabras foi a forma criativa encontrada pela cooperativa para manter o posto de trabalho do pastor e ajudar a financiar a construção do estábulo para o rebanho e o equipamento da ordenha. 

A junção do desenvolvimento social e ambiental ao económico é uma marca da Terra Chã. Por exemplo, o leite das cabras do rebanho segue diariamente para a leitaria da Escola Superior Agrária de Santarém onde é produzido o queijo de cabra Terra Chã Natura para depois ser comercializado. O mesmo acontece com mel entregue na melaria da cooperativa, um projeto erguido no edifício da antiga escola primária da aldeia do qual resultou também uma atividade turística, e onde se proporciona formação e acompanhamento aos apicultores locais e produz o mel Terra Chã Natura. Desta forma, estes dois projetos não só contribuem para a valorização ambiental e dos recursos endógenos da região como são responsáveis pela criação de dois produtos de marca própria e dois dos três postos de trabalho criados pela cooperativa.  

A caminho da sustentabilidade

Nas coletividades sem fins lucrativos, o dinheiro é um bem escasso. Na Cooperativa Terra Chã não é diferente. Apesar dos investimentos realizados serem geralmente financiados com recurso a apoios autárquicos e fundos de coesão, a cooperativa herda sempre uma parte da fatura. “Não somos sustentáveis devido aos investimentos que fizemos”, diz, adiantando que a fatura da infraestrutura que alberga o rebanho, apesar de cofinanciada, tem uma conta pesada. “Só o equipamento de ordenha custou 50 mil euros”, contabiliza. Mas há um motivo. “Se não há pastorícia na serra ou se não há pequena apicultura, é porque são setores não viáveis, mas é o preço a pagar pela valorização ambiental e pelo desenvolvimento local”, justifica. Quando questionado sobre quando conseguirão ser sustentáveis, a resposta está na ponta da língua. “Só conseguiremos quando o Estado pagar os serviços de ecossistemas”.

Devia-se apoiar as pessoas que ainda vivem nas aldeias a semear as favas, o centeio, a mexer a terra, de forma a criar alimento para os coelhos e para os seus predadores. Só assim é possível regenerar os ecossistemas


Na opinião do Presidente da Direção da Cooperativa Terra Chã, o caminho para o desenvolvimento ambiental, económico e social local, passa pelo incentivo da agricultura de ecossistemas. “Devia-se apoiar as pessoas que ainda vivem nas aldeias a semear as favas, o centeio, a mexer a terra, de forma a criar alimento para os coelhos e para os seus predadores. Só assim é possível regenerar os ecossistemas”, diz, sublinhando que a agricultura é potenciadora do turismo e da conservação da natureza. “A agricultura não está desligada do turismo e, sobretudo, do turismo de natureza e ninguém quer visitar uma aldeia deserta, sem atividade”, defende. “Gastar milhões a cortar mato é despejar barrigadas de dinheiro numa solução que nada resolve a médio prazo”, adianta.

A recente alteração do Plano Nacional de Apicultura é mais um exemplo apontado de política contrária às necessidades dos territórios mais vulneráveis. De acordo com as novas regras, o número exigido de colmeias para que a melaria tenha direito a um apoio ao vencimento do técnico apícola é irrealista para zonas serranas. “Só este ano, estas regras já foram responsáveis pelo encerramento de duas melarias”, conta. “Ainda não sabemos como vamos resolver esta situação, mas vamos resolvê-la”, diz, resiliente. “Uma melaria com mais de quatro mil colmeias. Isso só é possível em zonas como o Alentejo”, exclama.
Mas, entretanto, enquanto a sensibilização para as particularidades dos territórios mais vulneráveis não chega aos decisores políticos, a Terra Chã vai fazendo o seu caminho rumo à sustentabilidade e, por estranho que pareça, o recente contexto pandémico até deu uma ajuda. 

Assegurar a continuidade

Com a pandemia, o restaurante Terra Chã foi obrigado a encerrar, hipotecando uma das fontes de receita da cooperativa. Com instalações e equipamentos envelhecidos, uma reabertura capaz de lhe conferir o brilho e a missão que o originou, implicava um investimento avultado. “O restaurante precisava de obras e de uma renovação e como nós ainda estamos a pagar o estábulo, não tínhamos capacidade para o fazer”, confessa António. A solução passou pela concessão do espaço à Sal e Serra, uma plataforma online de reservas de experiências focada na região do Parque Natural da Serra de Aire e Candeeiros. E é caso para dizer que “a sorte protege os audazes”.

O capital humano está assegurado mas, para continuar a crescer,
o futuro da Cooperativa Terra Chã terá que passar pela profissionalização da gestão. 

Mais do que um concessionário, a Terra Chã ganhou um parceiro em todas as frentes. Além do rendimento obtido, o espaço teve a renovação necessária e as atividades da cooperativa passaram a estar disponíveis no site da Sal e Serra. E, estes, nas últimas eleições, passaram a fazer parte dos órgãos sociais da cooperativa. “Desta forma, não só demos um passo grande no caminho da sustentabilidade como ficamos com mais tempo para dinamizar este espaço, a serra, com o rebanho, os percursos pedestres e para pensar noutros projetos bons para as pessoas e que deem para viver aqui”, diz. Entre os projetos futuros está a construção de uma queijaria, para diminuir os custos e a pegada ecológica do transporte do leite até Santarém, e a criação do Centro de Interpretação das Grutas de Alcobertas. Mas, o maior de todos, é assegurar a continuidade do trabalho iniciado em 1985, aquando da fundação da Associação Juvenil Rancho Folclórico de Chãos.

Nos 20 anos de existência, a Cooperativa Terra Chã teve dois presidentes, Júlio Ricardo, o instigador do Rancho Folclórico criado em 1985, e António. Mais do que vontade, a continuidade de projetos semelhantes ao da cooperativa Terra Chã depende do capital humano, uma matéria-prima cada vez mais escassa nas aldeias do país. Alcobertas, a freguesia a que pertence a aldeia de Chãos, não escapa a este problema. De acordo com os Censos 2021, a localidade tem 1.738 habitantes, menos 9,6% que em 2011. Convicto do trabalho realizado, os números não amedrontam o responsável da Terra Chã que, no entanto, acredita que a cooperativa terá que dar mais um salto na sua evolução. 

“O ideal é que a sucessão aconteça antes de nós nos cansarmos e estamos a tratar disso”, diz, adiantando que já há gente nova entre os órgãos sociais e que as principais obras estão feitas. Além dos responsáveis da Sal e Serra, o trabalho do passado começa a dar frutos. Uma antiga participante do Rancho Folclórico, que criou recentemente um alojamento local na região – Trilhos da Serra – entrou também para os órgãos sociais da cooperativa. “O restaurante, o estábulo, a melaria. Já temos a base. Mais, só com a gestão”, defende, apontando para a incontornável profissionalização da gestão da cooperativa. “Sabemos que isso não vai acontecer só com voluntários. As organizações têm que ser renovadas, senão, caem de maduras”, adianta, defendendo que mais tarde ou mais cedo, a cooperativa terá que avançar para a profissionalização da gestão e ser vista como um complemento para o rendimento dos colaboradores.    

O próximo passo será mais um desafio, mas António encara o futuro de sorriso na cara e sem dúvidas sobre a continuidade e o impacto do trabalho da Terra Chã. E, quando questionado sobre se é possível contrariar o despovoamento das regiões mais frágeis do país, como é o caso da aldeia de Chãos, a resposta do responsável da cooperativa é perentória. “Se existirem estruturas enquadradoras e lhes forem dadas as condições para dinamizar o território, sim, é possível”, exclama.  

@iNature

António Frazão, 58 anos,  Presidente da direção da Cooperativa.

António Frazão, 58 anos, Presidente da direção da Cooperativa.

Centro de Tecelagem da Terra Chã, um dos primeiros projetos da cooperativa.

Centro de Tecelagem da Terra Chã, um dos primeiros projetos da cooperativa.

Exposição de miniaturas “Engenhos e Alfaias Agrícolas”, da autoria de Rui Silva, patente no edifício do Centro de tecelagem  da Cooperativa Terra Chã até 5 de outubro, no âmbito do 36º aniversário do Rancho Folclórico de Chãos.

Exposição de miniaturas “Engenhos e Alfaias Agrícolas”, da autoria de Rui Silva, patente no edifício do Centro de tecelagem da Cooperativa Terra Chã até 5 de outubro, no âmbito do 36º aniversário do Rancho Folclórico de Chãos.

Madeiras de Portugal. Uma exposição permanente a ver no Centro de Tecelagem da Terra Chã.

Madeiras de Portugal. Uma exposição permanente a ver no Centro de Tecelagem da Terra Chã.