Alex Gesse tinha uma vida boa, de acordo com os padrões normais de avaliação da qualidade de vida. Vivia numa grande cidade, com tudo ali à mão, e dirigia a delegação espanhola de uma multinacional - um bom emprego, portanto. Mas, a certa altura, fartou-se. "Aborreci-me. Aquela corrida constante atrás das metas, do sucesso, deixou de fazer sentido. Cansei-me", diz, e decidiu dedicar-se a uma das grandes paixões da sua infância, a floresta. A outra, o mar, tornou-se demasiado arriscada, justifica. Encantou-se por uma portuguesa e mudou-se para Portugal, onde cofundou o Instituto de Banhos de Floresta, que entretanto se tornou no Forest Therapy Hub, uma organização internacional focada na promoção e desenvolvimento das práticas de saúde e bem-estar baseadas na natureza. É o Shinrin-yoku a ganhar as primeiras raízes em Portugal. A iNature foi falar com Alex Gesse sobre o potencial desta prática ancestral japonesa para a saúde e o bem-estar, o turismo e a valorização das florestas. 

Banhos de Floresta e Terapia da Floresta. Quais são as diferenças?
Ainda não há uma definição uniforme a nível mundial, tanto para uma como para outra, e há quem se refira a ambas como sendo a mesma coisa. Porém, ao nível da investigação científica que tem vindo a ser feita, a Terapia de Floresta refere-se a um tratamento, semelhante à terapia psicológica ou, por outro lado, a exercício ao ar livre. A nossa aproximação é que a Terapia de Floresta é uma intervenção baseada na natureza e os Banhos de Floresta serão uma atividade baseada na natureza. Ambas procuram, em função de necessidades individuais, naturais, ambientais e doenças específicas, usar a floresta como uma ferramenta de intervenção. Nós, no Forest Therapy Hub, queremos diferenciar as duas práticas. Para nós, os Banhos de Floresta são uma prática de bem-estar e melhoria da qualidade de vida, o que se enquadra no mesmo campo de levar uma dieta saudável ou fazer exercício de forma recorrente, e potenciar os benefícios terapêuticos que a floresta já tem por si própria, a ligação emocional com o meio ambiente, e também com o meio social.

A terapia está associada a um tratamento médico, à saúde, enquanto os banhos estão ao nível dos spa ou das Termas. É isso?
Sim, pode-se fazer essa analogia. Qualquer sistema de saúde tem vários níveis de intervenção. O primeiro é a promoção: a construção de hospitais, de spas, a criação de planos de vacinação da população e a promoção de uma alimentação saudável. Os Banhos de floresta enquadram-se neste primeiro nível. O segundo é prevenção, com intervenções específicas de base populacional e individual para prevenção primária e secundária (deteção precoce), com o objetivo de minimizar a carga de doenças e os fatores de risco associados, e o terceiro incide já sobre pessoas que estão doentes e têm como objetivo melhorar a sua qualidade de vida. Os Banhos de Floresta enquadram-se neste primeiro e segundo níveis, no que se refere a prevenção focada na qualidade de vida. Na prevenção secundária e terciária, os Banhos de Floresta e a Terapia de Floresta cruzam-se. Já no terceiro nível, onde se enquadra o tratamento e a reabilitação de uma doença é o campo da Terapia de Floresta.

"Há resultados 'científicos' sólidos ao nível da melhoria da saúde cardiovascular,
das condições de morbilidade, obesidade e mortalidades.
Estas últimas com elevado enfoque nas populações das grandes cidades".

Já existe alguma investigação científica nesta área. De acordo com os resultados, quais são os benefícios com mais evidência para o corpo e para a mente, resultantes da prática destas atividades?
De acordo com os estudos existentes, podemos afirmar que existem várias áreas onde há benefícios evidentes. A melhoria da perceção de saúde e bem-estar é uma delas. O bem-estar é um conceito subjetivo e não um facto. Duas pessoas com a mesma doença podem ter perceções diferentes de bem-estar e é consensual que a natureza tem um efeito terapêutico, que ajuda a melhorar a perceção de bem-estar e saúde. Há por exemplo estudos que demonstram que a presença de imagens da natureza ajuda os pacientes a melhorar e a fazê-lo mais rapidamente. A saúde mental é outra área visada. Por exemplo, ao nível da diminuição do stress, do aumento da capacidade cognitiva e da atenção e do estímulo de emoções positivas. O fomento da interação e coesão sociais também são referidas em alguns trabalhos, tal como o fortalecimento do sistema imunitário. Depois, há resultados sólidos ao nível da melhoria da saúde cardiovascular, das condições de morbilidade, obesidade e mortalidade. Estas últimas com elevado enfoque nas populações das grandes cidades. No entanto, apesar dos trabalhos já realizados, é consensual entre a comunidade científica que há ainda um longo caminho a percorrer em termos de investigação.

Quais são as características que uma floresta tem de ter para ser um bom local para a prática da Terapia ou dos Banhos de Floresta?
A investigação até agora realizada tem-se focado mais nas pessoas do que nas características das florestas, mas há uma série de premissas que estão ligadas à qualidade de uma floresta. A ionização negativa, que significa a presença de água ou de humidade no ambiente e a presença de monoterpenos, um tipo de hidrocarbonetos que estão relacionados com a tipologia da árvore, são duas delas. Todavia, em termos de saúde mental, não são os sítios que fazem a diferença, mas sim outros fatores, muito mais específicos. A forma como abordamos a prática dos Banhos de Floresta e da Terapia de Floresta faz com que qualquer floresta seja boa. O importante é que nos sintamos cómodos para que surja uma ligação emocional com a natureza, porque esta conexão é que é fundamental.

Tendo em conta as características que enunciaste, quais as florestas nacionais mais adequadas à prática dos banhos de floresta?
Dentro das florestas onde há mais atividade temos a Mata do Bussaco, que é onde vai ser a nossa base – sede - e temos também a Mata dos Medos, na Costa da Caparica, que é uma reserva botânica. Em ambientes urbanos, a Mata do Monsanto é muito boa e adequada. Nestas práticas, é fundamental que a floresta esteja perto das pessoas. Por exemplo, não faz sentido que uma pessoa que viva no interior do país vá para a Mata do Bussaco, quando tem na Serra da Estrela ou da Gardunha ótimos locais para a prática dos Banhos de floresta. A proximidade é fundamental porque estamos a falar de uma prática que queremos equiparar a exercício físico e as pessoas quando vão a um ginásio optam pelo que está mais perto. Pode existir uma floresta perfeita a uma ou duas horas de casa, mas se existe uma floresta urbana a minutos de casa, essa é a melhor.

Esta prática ou tendência pode ser um catalisador da sensibilização das pessoas para a proteção das florestas?
Sim, porque um elemento básico para a nossa saúde e bem-estar é estar ligado à floresta. Os ingleses usam o termo connectedness, que significa ter uma ligação emocional e, no momento em se estabelece essa ligação emocional, isso despoleta uma série de reações nas pessoas, e uma delas é o ânimo e as atitudes pro-ambientais, de conservação. Ou seja, isto alinha-se com o chamado conceito de saúde planetária. As pessoas começam a interiorizar que não podem estar ou ser saudáveis se o planeta e o ambiente não forem saudáveis.

Os Banhos de Floresta são procurados pela população urbana devido ao stress da vida profissional e do quotidiano da vida na cidade. A Terapia da Floresta é sugerida a diferentes tipos de populações e campos da saúde mental.

E para o Turismo? Estamos perante um novo produto turístico a desenvolver?
Nós estamos a implantar os Banhos de floresta como produto turístico na Argentina, na Costa Rica, em Espanha e em Itália. São práticas que têm tudo para ser um produto turístico no segmento do turismo de saúde e bem-estar. Como agora vamos um fim-de-semana para as termas, um dia iremos fazer uma imersão na floresta. As termas fazem parte das atividades baseadas na natureza, porque a água das termas vem da terra, da natureza. E podem misturar-se as duas práticas: de manhã vou à floresta e à tarde vou às termas.

Que tipo ou qual é o perfil das pessoas que procuram a Terapia da Floresta?
Qualquer tipo de pessoa. Os Banhos de Floresta são procurados sobretudo pela população urbana, que é muito fustigada pelo stress da vida profissional e do quotidiano da vida na cidade. A Terapia da Floresta como intervenção é sugerida por instituições públicas e privadas dirigidas a diferentes tipos de populações: saúde mental, crianças, adolescentes, inclusão social, imigrantes, etc.

Além do Japão, onde o Shinrin-yoku é uma prática ancestral, como estão as práticas dos Banhos de floresta e da Terapia de floresta a evoluir, em Portugal e no resto do mundo?
Em Portugal, os Banhos de Floresta e a Terapia da Floresta começaram em 2016 com o Instituto de Banhos da Floresta, que agora faz parte do Forest Therapy Hub. Está tudo ainda numa fase muito embrionária. Ainda não há iniciativas na área da Terapia da Floresta, mas nos Banhos de Floresta temos projetos em curso com a Câmara Municipal de Lisboa e com os municípios de Monchique e de Sever do Vouga. Com este último realizámos há pouco tempo um workshop de três semanas intitulado “Sever do Vouga a Caminhar”, que teve início no Dia Europeu dos Parques – 24 de maio – e que consistiu, entre outras atividades, num banho de floresta de duas horas no parque da Cascata da Cabreia, uma das cascatas mais bonitas de Portugal. De forma mais abrangente, estamos a preparar a Conferência Internacional da Terapia da Floresta no próximo ano, que terá a participação do Governo português e de várias instituições, organizações e especialistas de todo o mundo. Irá realizar-se no Grande Hotel do Luso, mas ainda não conseguimos adiantar a data da realização.

"Será necessária mais investigação para que os sistemas de saúde
aceitem a natureza como tratamento, mas vamos chegar lá.
É uma questão de tempo".

Como está a ser a receção por parte das pessoas e instituições que têm contactado no sentido de desenvolver a atividade dos Banhos de floresta?
A receção está a ser muito boa. Temos tido uma situação particular devido ao contexto da pandemia, mas se já havia uma tendência para olhar mais para as práticas de bem-estar baseadas na natureza, agora demos um salto qualitativo no que respeita à valorização desde tipo de atividades como práticas complementares da prevenção e dos tratamentos de saúde.

Mas o Forest Therapy Hub está a desenvolver projetos noutros países. Podes adiantar o teor de alguns projetos?
Sim, o Forest Therapy Hub é uma organização internacional com base em Portugal com a missão de liderar o campo interdisciplinar das práticas de saúde e bem-estar baseadas na natureza, e o conhecimento cientifico, sobretudo através da promoção da investigação sobre estas práticas e, neste âmbito, temos vários projetos a decorrer a nível internacional. Em Espanha, estamos a trabalhar com organizações no sentido de fomentar a prescrição de natureza e com alguns municípios onde há a intenção de implementar estas práticas como políticas públicas. No Chile, além de estarmos também a promover vários projetos piloto de investigação científica, estamos a colaborar com o Governo através da formação de guardas florestais para que eles possam oferecer estas práticas às pessoas que visitem os parques naturais do país.

Em Espanha já se prescreve natureza, como prática de prevenção e tratamento de doenças?
Através do serviço nacional de saúde, ainda não, mas existem empresas privadas da área da saúde que já o fazem. A seguradora DKV, com quem estamos a colaborar, é uma delas. E estamos a trabalhar com várias câmaras municipais que pretendem adotar os Banhos de Floresta como política pública. Em Itália, a atividade está também bastante desenvolvida, em particular, no Monte Sibilini, fruto do trabalho desenvolvido pelo ex-diretor do parque, Carlo Bifulco. O Carlo colabora com o Forest Therapy Hub e com várias universidades portuguesas, e implementou cerca de duas dezenas de percursos saudáveis neste parque italiano. Será necessária mais investigação para que os sistemas de saúde aceitem a natureza como tratamento, mas vamos chegar lá. É uma questão de tempo.

© iNature